quinta-feira, 3 de maio de 2018
segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018
FRATERNIDADE E SUPERAÇÃO DA VIOLÊNCIA - INTRODUÇÃO
FRATERNIDADE E SUPERAÇÃO DA VIOLÊNCIA
ASPECTOS INTRODUTÓRIOS
Os episódios de violência intensificaram-se e tornaram-se comuns também em cidades pequenas e médias, deixando de ser um fenômeno típico das grandes metrópoles. A violência direta é que chama mais a atenção. Essa forma de violência acontece quando uma pessoa usa a força contra outra. Porém, vemos crescer sempre mais as formas coletivas e organizadas da prática de violência.
A violência se caracteriza pelo uso intencional da força contra si mesmo, contra outra pessoa ou contra um grupo de pessoas. Essa violência pode resultar em dano físico, sexual, psicológico ou morte. A violência não é um caso apenas reservado ao tratamento policial, à lei, mas é uma questão social que requer a atenção e a participação de toda a sociedade para ser enfrentada.
Nesta Campanha da Fraternidade desejamos refletir a realidade da violência, rezar por todos os que sofrem violência e unir as forças da comunidade para superá-la. Os índices da violência no Brasil superam significativamente os números de países que se encontram em guerra ou que são vítimas frequentes de atentados terroristas.
FRATERNIDADE E SUPERAÇÃO DA VIOLÊNCIA - VER
Ao longo da década de 1990, cresceu significativamente o acesso aos equipamentos e aos serviços privados de proteção. Todavia, essa aparente proteção também aumenta, colateralmente, o isolamento. Mantém-se à distância não só o potencial inimigo, mas também o amigo.
Esse distanciamento impede o confronto necessário e benéfico com o outro, abrindo portas para o estranhamento e o ódio contra quem pensa ou é diferente. O "outro" converte-se, então, em mais uma ameaça à sensação individual de segurança.
Apesar de possuir menos de 3% da população mundial, nosso país responde por quase 13% dos assassinatos no planeta. Em 2014, o Brasil chegou ao topo do ranking, considerado o número absoluto de homicídios. Foram 59.627 mortes, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (lpea)
Entre os maiores desafios contemporâneos no campo da segurança pública, em uma perspectiva de promoção à cidadania, está o de garantir que as políticas públicas implementadas tenham em vista o aumento da solidariedade entre as pessoas, ao invés de enclausurá-las, criando-se empecilhos ou mesmo impedindo relações interpessoais humanizadas. Não existe a possibilidade de se encaminhar uma solução sem a ampla e irrestrita participação da sociedade.
A EXPERIÊNCIA COTIDIANA DA VIOLÊNCIA - No Brasil,cinco pessoas são mortas por arma de fogo a cada hora. A cada dia, são 123 pessoas assassinadas dessa forma. No ano de 2014, houve mais de 40 mil mortes. A violência direta pode ter formas sutis sem, com isso, tornar-se menos danosa. As redes sociais têm con
tribuído para dar visibilidade à violência expressa sob a forma de preconceito ou ódio de classe, de raça, de gênero, de política e até mesmo de intolerância religiosa.
É possível suspeitar que a sociedade brasileira possa estar consolidando modos de vida cuja referência é fazer justiça com as próprias forças.
Três fatores são fundamentai s para definir esses espaços de paz e de guerra. O primeiro deles é a ação (ou omissão) do poder público. O segundo ponto que demarca a ocorrência da paz ou da guerra está relacionado ao poder do dinheiro. Um terceiro ponto diz respeito ao tratamento seletivo dado pelos órgãos públicos, dos três poderes, em relação à garantia de direitos, como o acesso à Justiça.
Vários estudos associam o aumento da violência letal - ou seja, a violência que gera morte - ocorrido na década de 1980 com a crise socioeconômica vivida naquele período. O processo inflacionário e a consequente corrosão dos salários implicaram perda de rendimentos principalmente para os mais pobres. Como resultado, aumentou expressivamente a desigualdade social.
A violência não parece ser redutível a uma disfunção ou mal funcionamento do aparato estatal. Mostra-se, antes, como um processo de produção e de reprodução de desigualdades, resultante do próprio modo de funcionamento das instituições.
A CULTURA DA VIOLÊNCIA - Por "violência cultural" entendem-se as condições em razão das quais uma determinada sociedade não reconhece como violência atos ou situações em que determinadas pessoas são agredidas. Criam-se processos que fazem aparecer como legítimas certas ações violentas.
Estudos feitos a partir de inquéritos policiais mostram uma grande proporção de assassinatos cometidos por impulso ou por motivos fúteis: ciúmes, desavenças entre vizinhos, desentendimentos no trânsito e outras formas de conflito, nesse contexto, a reação violenta torna-se naturalizada, como se a forma passional fosse a maneira única e "normal" de reagir a uma situação conflitiva.
Entende-se que uma certa dose de violência seria, inclusive, benéfica para manter as "pessoas de bem" longe do crime e dar o "devido castigo" a quem deixou de fazer "aquilo que é certo". Diferentemente da violência direta que pode ser mais facilmente identificada e da violência estrutural da qual se veem traços mais ou menos definidos, a violência cultural pode ser mais esquiva.
Passaram-se as décadas, mas, no Brasil, foi se instituindo apenas uma igualdade formal dos indivíduos. Mesclam-se as distinções sociais e as econôm1cas de tal forma que se forja uma sociedade altamente hie rarquizada - baseada em relações de mando e subordinação, ao invés de fundar-se na igualdade de direitos e na imparcial obediência às leis.
O Brasil é um país perigoso para quem atua em favor da igualdade de direitos. 66 defensores dos direitos humanos foram assassinados no Brasil em 2016. O modo violento de se viver em sociedade no Brasil se dá por causa da escolha de alguns grupos que, ao tentar manter a atual ordem estabelecida, acaba tornando alguns modelos fixos e sem alteração, nesse caso é complexo o enfrentamento da violência, pois prejudica as relações sociopolíticas.
AS VÍTIMAS DA VIOLÊNCIA NO BRASIL CONTEMPORÂNEO:
VIOLÊNCIA RACIAL - Suposição de que existam raças humanas distintas e de que umas são superiores a outras. Nessa mentalidade, o sujeito considera inferiores as pessoas que não possuem as mesmas características que ele.
VIOLÊNCIA CONTRA MULHERES E HOMENS - 13 homicídios diários, em média -, o Brasil ocupa a quinta colocação em uma lista de 83 países. Ocorrem aqui 2,4 vezes mais homicídios de mulheres do que a média internacional. A cada três vítimas de violência, duas eram mulheres.
VIOLÊNCIA DOMÉSTICA - 71,8% das agressões registradas pelo SUS em 2011 aconteceram no domicílio da vítima. Casos de violência são mais frequentes contra mulheres jovens. Uma em cada seis pessoas (16%) com mais de 60 anos de idade já sofreram algum tipo de abuso.
VIOLÊNCIA E NARCOTRÁFICO - O narcotráfico movimenta mais de 400 bilhões de dólares por ano, sendo um dos setores mais lucrativos da economia mundial. Ao invés de os governos nacionais e os sistemas
internacionais de combate às drogas somarem esforços no combate à produção e distribuição das drogas,
onde se encontram os grandes traficantes, a política de repressão às drogas está seletivamente direcionada aos usuários e microtraficantes.
40% dos nove milhões de presos em todo o mundo foram aprisionados em razão do comércio e do uso de substâncias consideradas ilícitas. Perfil do encarcerado: 67% dos presos no Brasil são negros, 56% têm entre 18 e 29 anos, e 53% não completaram sequer o Ensino Fundamental. No caso do encarceramento feminino, 63% das mulheres estão presas por tráfico de drogas.
INEFICIÊNCIA DO APARATO JUDICIAL - O Brasil tem umas das maiores populações carcerárias do mundo. São mais de 650 mil presos, vivendo em condições degradantes.
Ao invés de praticar os ideais de recuperação e reintegração da pessoa apenada à sociedade, as prisões se transformam em um depósito de supostos "maus elementos" a serem reprimidos e, se possível, esque cidos pela sociedade.
POLÍCIA E VIOLÊNCIA - é comum que se enxergue, como única solução para o problema da violência, o aumento do policiamento e o recrudescimento das leis penais. Esta não é a solução!
RELIGIÃO E VIOLÊNCIA - A religião é um elemento de coesão social, que otimiza o capital social das comunidades. Quando as pessoas se reúnem em comunidade e na identidade de suas crenças, elas reforçam os laços que as unem e reconhecem-se como irmãos, irmãs e semelhantes. Contudo, também é possível que a experiência religiosa também se converta em uma forma de violência. No Brasil, tem sido comum a intolerância e o fanatismo religioso.
segunda-feira, 28 de agosto de 2017
ÉTICA DE KANT
ÉTICA DE KANT
A moral Kantiana exclui a ideia
de que possamos ser regidos se não por nós próprios. É a pessoa humana, ela
própria, que é a medida e a fonte do dever. O homem é criador dos valores
morais, dirige ele próprio a sua conduta.
Como para Rousseau, será para
Kant a consciência a fonte dos valores. Mas não se trata de uma consciência
instintiva e sentimental; A Consciência moral para Kant é a própria Razão.
Assim, a moral de Kant é uma
moral racional: a regra da moralidade é estabelecida pela razão – O Princípio
do dever é a pura Razão. A regra da ação não é uma lei exterior a que o homem
se submete, mas é uma lei que a razão, Atividade Legisladora, impõe à
sensibilidade. Nestas condições, o homem, no ato moral, é ao mesmo tempo,
Legislador e Súbdito.
É uma ética formal, vazia de
conteúdo, na medida em que:
1º - não estabelece nenhum bem
ou fim que tenha que ser alcançado
2º - não nos diz o que temos
que fazer, mas apenas como devemos atuar
O que interessa é a intenção, a
coerência entre a ação e a lei, e não o fim.
A ética Kantiana possui uma
Forma e não um conteúdo à essa forma necessária é a Universalidade: O racional
é o Universal.
Kant critica as éticas
tradicionais por serem:
a) empíricas – cujo conteúdo é
extraído da experiência e portanto não permite leis universais.
b) os preceitos das éticas
materiais são hipotéticos ou condicionais (meios para atingir um fim.
c) as éticas materiais são
heterónomas – a lei moral é recebida, não radica na razão. A vontade é
determinada a atuar deste ou daquele modo por desejo ou inclinação.
Na base da moral Kantiana está
presente um determinado conceito de Homem.
- O homem é um ser que se
auto-regula a si mesmo, que se auto-determina em liberdade.
- O homem possui neste sentido
um poder absoluto – a sua razão autónoma e livre determina a sua própria lei.
- O homem é um destino, isto é,
um ser que tem que fazer-se a si mesmo – Personalização – “ao homem cabe o
destino moral da personalização.”
- Mas o homem, em virtude da
sua constituição, participa também do mundo sensível, da animalidade.
- O homem é um ser dividido
dentro de si próprio. Por um lado é um Ser Empírico, enquanto livre arbítrio
que pode ou não agir segundo a representação da lei moral. Por outro lado é um
Ser Inteligível, na medida em que leva em si um tipo de Causalidade Livre, que
se impõe como exigência absoluta e incondicional.
O HOMEM COMO SER MORAL À AUTONOMAMENTE À LEI MORAL
O que é a Lei Moral?
A lei moral é para Kant,
Universal, Necessária e «apriori», pois o seu fundamento não poderia ter sido
tirado da experiência onde existem muitas inclinações e desejos contraditórios.
A lei moral fundamenta-se na
liberdade da Razão e tem origem na consciência moral, isto é, na razão
autónoma.
A lei moral é a lei que o homem
enquanto ser racional e livre descobre em si mesmo como correspondendo à sua
natureza. É uma lei intrínseca da razão. É a existência da moralidade no homem
– A Personalidade – que o identifica com Deus: “Maximamente pessoa e ideal de
existência personalizada, isto é, absolutamente causadora de si”.
No homem a Lei Moral afirma-se
como um Dever e assume a forma de Imperativo Categórico.
DEVER – O que é então o dever
para Kant?
“A necessidade de uma ação por
puro respeito à lei”
“O valor moral de uma ação não
radica pois em qualquer fim a atingir, mas apenas na máxima, no motivo que
determina a sua realização, quando este motivo é o dever.
Uma ação feita por dever tem o
seu valor moral, não no fim que através dela se queira alcançar, mas na máxima
pela qual ela resultou: não depende pois da realidade do objeto, mas apenas
meramente do princípio do querer”.
Para Kant “uma ação não é
obrigatória porque é boa, é boa porque é obrigatória”.
Para Kant o Dever é o Bem: A
Boa Vontade é a Vontade de agir por Dever.
A Lei Moral que se impõe por
Dever assume a Forma de Imperativo Categórico
O imperativo categórico, ou da
moralidade, determina a ação independentemente de todo o fim a atingir e tem o
seu fundamento apenas na consciência moral.
O imperativo moral é categórico
(e não hipotético ) sem qualquer condição. Respeita à forma e princípio donde
resulta a ação (“o valor da ação moral ... vem do princípio da vontade que o
produziu”) isto é a Intenção, se assim não fosse, as suas determinações
ficariam sujeitas à possibilidade material de realizar a ação apreciando-lhe as
consequências, então não seria categórico. Essa forma necessária é a
Universalidade: O Racional é o Universal.
A vontade não se determina só
por leis, mas por fins, mas os fins subjetivos são relativos e só podem fundar
imperativos hipotéticos. Só um fim em si pode fundar um imperativo categórico,
só o homem é fim em si e tem valor absoluto, é pessoa; os objetos ou seres irracionais
têm valor relativo, são coisas.
Se o homem é fim em si, a sua
vontade só pode estar ao serviço da razão; a vontade moral é, pois, autónoma, e
há heteronomia sempre que o ser racional obedece a um móvel exterior à Razão.
A lei moral é um imperativo e
obriga o homem ao Dever.
O
PRÓPRIO PRINCÍPIO DA MORAL À LIMITE PRÁTICO
Constituído por impulsos sensíveis
que leva à finitude de quem deve realizá-la
A moralidade não é
racionalmente necessária de um Ser Infinito que se identifica com a Razão, mas
sim a racionalidade possível de um ser que tanto pode assumir como não assumir
a Razão como guia de conduta.
Aqui está a Raíz da exigência
paradoxal de que o homem como sujeito de Liberdade valha como Númeno – mas
afirmando-se como Númeno o homem não anula a sua natureza sensível – o Ser
Fenómeno.
A sua numenalidade mobiliza a
sua fenomenalidade.
O mundo supra-sensível que
estabelece no acto da sua liberdade, é a forma da própria natureza sensível.
Mas o sujeito moral enquanto
Númeno não deixa se ser fenómeno – a sensibilidade, e como tal nunca se
identifica com a Razão, a moralidade nunca é conformidade completa de vontade
com lei moral, nunca é Santidade.
A ÉTICA DE ARISTÓTELES E A ÉTICA DE KANT: A PROPÓSITO DE UM BREVE COTEJO
A ÉTICA DE ARISTÓTELES E A ÉTICA DE KANT: A PROPÓSITO DE UM
BREVE COTEJO
Maurílio Santiago
“O que não quereis que vos
façam, não o façais a nenhum outro”.
MT. 7, 12; LC 6, 31
“Existir, se não se entende por
isto um simulacro da existência, não pode realizar-se sem paixão. A existência
ela própria, o existir, é um esforço, simultaneamente patético e cômico;
patético, porque o esforço é infinito, ou seja, dirigido para o infinito,
porque é realização do infinito, o que significa o mais alto pathos; cômico,
porque o esforço é uma contradição interna. Do ponto de vista patético,um
segundo tem um valor infinito; do ponto de vista cômico, dois mil anos são uma
brincadeira.”
Kierkegaard
1 ARISTÓTELES: A CONTEMPLAÇÃO DE DEUS COMO O BEM SUPREMO
Aristóteles é o fundador da
Ética como “ciência pratica”, em contraposição à ética como “ciência teórica”
almejada por Platão. Se por um lado a ética de Platão é a fundamentação da
ética socrática da virtude numa ontologia do Bem (τό αγαθόν), na medida em que
a ideia do Bem tem um alcance ontológico (princípio primeiro de toda a
realidade) e um alcance ético (como princípio da αρετή fundamental que é a
justiça e que tem de realizar-se na totalidade – indivíduo, cidade, cosmos) e,
como tal, assume assim a forma de uma ciência suprema; por outro lado a ÉTICA
aristotélica busca apresentar uma noção de Bem não mais unívoca e separada,
como a Ideia do Bem (Platão), mas a noção de Bem passa a ser uma noção
analógica (λέγεται πολλαχως), e a ÉTICA então é compreendida como a ciência do
BEM no indivíduo, assim como a POLITICA é a ciência do Bem na πόλις. senão, vejamos.
Na ÉTICA A NICÔMACO Aristóteles
inicia partindo da seguinte tese, a saber: “Toda arte (τέχνή) e toda
investigação (μέθοδος) e igualmente toda ação (πράξίς) e todo propósito
(προαίρεσις) tendem para algum bem, segundo o que parece (δοχεί). Por isso
tem-se declarado com razão que o Bem é aquilo a que todas as coisas tendem”.
Logo no início encontramos sem nenhum rodeio a tese geral da obra. Nela alguns
elementos são, a nosso ver, fundamentais. Primeiro nosso autor tem um cuidado
especial em mostrar que cada coisa, na sua especificidade, tem seu bem
apropriado para o qual ela tende; como observa Tricot, causa final e Bem são
idênticos. Seja a arte em geral, que visa a realização de uma obra exterior ao
próprio artista, ao próprio homem (τεχνιτης; ποίητίς), seja a ação, cujo fim é
imanente ao próprio homem (“europraxie”), seja também a propósito (προαίρεσις),
compreendido como a escolha racional, deliberada e refletida, na qual todos
tendem para algum Bem. Outro ponto importante é a presença do termo δοχεί, ao
nos mostrar que Aristóteles parte ora da opinião comum, ora da opinião de algum
outro filósofo, característica muito presente na obra de um pensador que tem um
espírito agudo da História, ora da sua própria opinião. É a partir desse
conjunto de opiniões que se dá inicio a investigação filosófica sobre a moral,
e só depois, à luz da Razão, que poder-se-á dizer que há uma total evidencia
dos fatos. Como mostra Ticot, “O verbo δοχειν se distingue de ϕαινεσθαι, que indica a evidência dos
fatos”.
A ÉTICA aristotélica parte dos
fatos, embora seja sabido que em Aristóteles não há uma ética empirista e ou
utilitarista como em Hobbes, na medida em que ela expressa um princípio
fundamental da ética antiga, a saber, a teleologia do Bem e a aceitação da ideia
universal de “fim” e de “natureza”. Todavia poderíamos dizer, em sentido lato,
que a Ética aristotélica é uma ÉTICA A POSTERIORI, vem a ser, em termos de
método, uma ética que parte primeiro do conflito das opiniões para chegar ao
conceito filosófico. Ao invés de partir A PRIORI como no raciocínio apodítico,
que toma primeiro os princípios e as causas para depois atingir as
consequências e os efeitos, Aristóteles adota um método inverso, se quisermos,
A POSTERIORI, isto é, parte dos fatos para remontar por indução (έπαγωγή) até
aos princípios. Tal é o caminho utilizado pelo estagirita para tratar da
realidade moral e social, pois nesse contexto não se obtém uma clareza de
definições como nos axiomas matemáticos e, deve-se, portanto, partir da
experiência, diz Aristóteles:
Não esqueçamos a diferença que
existe entre os argumentos que partem dos princípios e os que voltam para eles
(…). É necessário, com efeito, partir das coisas conhecidas e, uma coisa é dita
conhecida em dois sentidos, seja para nós (ήμιν), seja de uma maneira absoluta
(απλώς). Sem dúvida devemos partir das coisas conhecidas para nós.
Estabelecido pois o método,
Aristóteles irá desenvolver um ponto nodal da sua ÉTICA, vem a ser, construir
uma filosofia da moral que deva permitir estabelecer as condições de BEM-estar
ou felicidade (ευδαιμουία) do cidadão. A Felicidade assume na ÉTICA
aristotélica um caráter fundamental. A Felicidade como Bem Humano tem um
caráter teleológico e no interior da ÉTICA A NICÔMANO são analisados diversos
tipos de Felicidade que se referem a diversos tipos de vida postas pelo
filósofo dentro de uma hierarquia, ao nosso ver melhor ilustrada na figura da
pirâmide, cujo ápice é a Vida do Sábio que encontra a Felicidade na
contemplação (τεωρία) do SUMO BEM. Diz Aristóteles: “Do momento em que toda
escolha deliberada aspira a algum Bem, que afirmamos ser os objetivos da
ciência política, de outro modo diz que é de todos os bens realizáveis aquele
que é o Bem Supremo. Sobre seu nome, em todo caso, a maioria dos homens estão
de acordo: é a FELICIDADE, tanto no dizer do vulgo como no dizer dos sábios,
todos assimilam o fato de Bem Viver e de Bem agir ao fato de ser FELIZ.
Diferem, porém, quanto ao que
seja a FELICIDADE, e o vulgo não o concebe do mesmo modo que os sábios”.
Aristóteles irá buscar a
definição da natureza da Felicidade (ευδαιμουία) a partir do conflito gerado
pelas diversas opiniões. Na busca de uma solução (λυσις) a esta aporia (απορία)
são colocados dois argumentos defensáveis, um ligado ao vulgo (οί πολλοί) outro
aos sábios (οί χαριεητης; σοϕοί;
αγαθοί), donde se chegará à verdade, ao conceito do que vem a ser a FELICIDADE,
que passará a ser então o princípio (αρχη) para se estabelecer a filosofia
moral.
O estagirita reconhece a
importância dos bens externos, como por exemplo, a riqueza, porém estes têm por
vista outra coisa, são apenas meio e, portanto, não podem ser o fim perfeito
(τέλειος), ao passo que o Soberano Bem é, com toda evidência, alguma coisa de
perfeito. Desse modo Aristóteles irá identificar o fim perfeito, o Soberano
Bem, com a Felicidade, “Vê-se pois que a felicidade é algo de perfeito e
auto-suficiente (αύταρχεια), e é o fim de nossas ações”.
Aristóteles assim irá definir a
Felicidade como a função própria do homem, afirma: “O simples fato de viver é,
com toda evidencia, uma coisa que o homem possui em comum mesmo com os
vegetais; ora, o que nós procuramos é aquilo que é próprio do homem”. Assim,
são refutados a nutrição e a percepção que igualam o homem às bestas. Com
efeito, diz ele: “resta pois uma certa vida prática da parte racional da alma,
parte que pode ser considerada, de uma parte, no sentido no qual ela esta
submetida a Razão,e, de outra parte, no sentido no qual ela possui a Razão (λογος)
e exerce o pensamento”. Ora, se a “Vida do elemento racional” tem dois
sentidos, a referência aqui é a vida “no sentido da atividade, pois essa parece
ser a acepção mais própria do Termo”. Desse modo chega-se ao conceito de
Felicidade que não é, senão “uma atividade da alma conforme a Razão”.
Se a unção do homem consiste em
um certo gênero de vida, isto é, em uma atividade da alma e das ações
acompanhadas de Razão; se a função de um homem virtuoso é a de realizar esta
tarefa, e realizar bem e com sucesso cada coisa, quanto mais estando bem cumprido
no memento em que ela é segundo a excelência que lhe é própria – nessas
condições é que o Bem para o homem consiste em uma atividade da alma em acordo
com a Virtude (αρητη),e, em se tratando de várias Virtudes, em acordo com a
mais perfeita entre elas.
A mais perfeita entre elas é a
σοϕία (sophia, sabedoria, filosofia) , a Vida
contemplativa, que é a suprema Felicidade.
Urge ressaltar que a ÉTICA
aristotélica é também uma doutrina do justo-meio (μεσότης), no qual consiste a
Virtude (αρετη) e também a investigação das possibilidades para a escolha
(προαίρεσις) do justo-meio. Tal é o longo caminho percorrido no livro II da
ÉTICA A NICÔMACO, no qual Aristóteles distingue os diferentes tipos de Virtude,
ligadas as duas partes da alma, a saber, o lado concupiscente e o puramente racional, daí a construção de
uma espécie de tabua das Virtudes.
Todavia, o ponto importante que
queremos ressaltar refere-se à contemplação (τεωρία) do Sumo Bem com a Suprema
Felicidade. No final da ÉTICA A NICÔMACO Aristóteles chegará à conclusão de que
“se a felicidade é uma atividade conforme a Virtude, será razoável que ela
esteja também em concordância com a mais alta Virtude; essa será a Virtude da
parte mais nobre que há em nós”. Nosso filósofo refere-se à, a σοϕία (Sophia), a Virtude do νους (Nous) ,
cuja atividade é a especulação pura (ϴεωρία).
A σοϕία (Sophia, Sabedoria) é o que há de divino
em nós e, com efeito, é através dela que alcançamos a perfeita felicidade; “sua
atividade conforme a Virtude que lhe é própria será a perfeita felicidade”.
Oito argumentos irão dar razão
ao fato de ser a CONTEMPLAÇÃO a Suprema Felicidade e a mais alta Virtude.
Ei-los:
PRIMEIRO ARGUMENTO – A Razão é
a melhor parte que há em nós e seus objetos são também os mais altos de todos os
objetos cognoscíveis. Os objetos de contemplação do νους (Nous) são as verdades da matemática, da filosofia
da natureza e da metafísica, que formam os três ramos da sabedoria teórica; mas
na hierarquia das ciências teóricas é a metafísica que ocupa o primeiro lugar,
em razão da suprema e absoluta realidade de seu objeto, vem a ser, DEUS.
SEGUNDO ARGUMENTO – A Vida
teórica ou a contemplação é a mais contínua. Esse caráter de continuidade é,
embora de forma muito menos elevada, semelhante ao primeiro Motor; ή νόητις
νοήτεως νόητις.
TERCEIRO ARGUMENTO – A
atividade segundo a sabedoria é a mais aprazível das atividades conforme a
Virtude.
QUARTO ARGUMENTO – A
contemplação possui o caráter de auto-suficiência (), independência,
incondicionalidade.
QUINTO ARGUMENTO – A atividade
teórica é um fim em si mesmo e desinteressado, na medida em que ela tem a meta
suprema.
SEXTO ARGUMENTO – A atividade
teórica possui uma espécie de lazer que lhe é próprio.
SÉTIMO ARGUMENTO – A atividade
teórica é o que há de mais divino no homem, ou ainda, “a Vida contemplativa,
atividade nobre e beatificante, é contínua e eterna no Primeiro Motor, o homem
não pode experimentá-la senão em raros momentos (μιιχρόν χρόνόν) no qual nosso
intelecto se torna ato”.
OITAVO ARGUMENTO – A
contemplação é a Verdadeira vida do homem. Se todo ser, com efeito, se define
por sua essência, o homem se define por sua alma, e a função da alma não é
senão a atividade segundo o νους (Nous)
, aí reside a essência do homem. Diz Aristóteles: “Para o homem a Vida
conforme a Razão é a melhor e mais aprazível, já que a Razão, mais que qualquer
outra coisa, é o homem. Donde se conclui que essa Vida é também a mais feliz”.
Ora, se a felicidade
encontra-se na Contemplação (ϴεωρία)
do Sumo-Bem poderíamos perguntar: Como Aristóteles define o Sumo-Bem? Nesse
momento a questão que se põe não é mais a do conhecimento dos fatos, cujo
método de investigação próprio da filosofia moral reside ao derredor da
pergunta pelo o quê (ότί), mas, sim, a busca pela causa, pela essência, pelo
porquê (διότί). Somos assim remetidos à METAFISICA, em especial ao livro Δ,
onde Aristóteles prova a primazia da substância e nos fornece o seu
conceito. Lembremos que esta obra e em
especial o célebre livro constitui, a nosso ver, uma das mais belas páginas
escritas pelo gênio de Aristóteles e que, sem duvida, irá marcar com uma força
caracterizante ímpar a cultura ocidental. Nela Aristóteles mostra a necessidade
de um primeiro Motor eterno, cuja essência seja não sensível, mas imóvel,
eterna, incorruptível e dotada de um movimento eterno e circular. Pois diz
Aristóteles: “É preciso que exista um principio tal que sua substância seja ato
mesmo”. Essa substância é ato, pois se fosse potência, haveria um momento no
qual nada tivesse existido, o momento do não-ser. “O mundo de toda eternidade é
o que é se o ato é anterior à potência”.
Assim, Deus, forma pura e
transcendente, ser supremo, é a soma e o termo da série das formas,
desenvolvidas entre o pólo da matéria e o pólo do Pensamento Puro. Ele não tem
outra condição senão ele mesmo, Ele é a realidade por excelência, que confere ao
resto existência e inteligibilidade. Tudo o que há participa em algum grau, e
em alguma medida de sua Perfeição. Deus é um ser absolutamente real,
absolutamente livre de toda matéria e de toda potência. Ato Puro, que informa
tudo e não é informado por ninguém, é, assim, causa formal e suprema
inteligibilidade, que em si contém tudo o que é inteligível. Com efeito Deus é,
por si mesmo, causa final, Soberano Bem, atração e animação universal, objeto
último do amor e do desejo, tudo aspira por sua atividade, a imitar a Vida
eterna e perfeita, que é o próprio Deus; ato puro, Primeiro Motor, eterno e
imóvel, pensamento do pensamento. Ora, Deus não é possuidor da Vida, mas é a
própria Vida, ato puro, e a Vida contemplativa, a contemplação de Deus, do
Soberano Bem, é o fim da Vida prática e o ideal de toda Vida. “Este caráter
divino da inteligência se encontra no mais alto grau da inteligência divina, e
a contemplação é a beatitude perfeita e soberana, o gozo supremo e a soberana
felicidade”.
2 KANT
E A ÉTICA RACIONALISTA
Kant é a expressão máxima da
ética racionalista, de caráter abstrato, que culmina na ética do DEVER
(Imperativo Categórico) e na universalidade da Razão, segundo o otimismo da
AUFKLÄRUNG. Para Kant a Filosofia deve indagar
sobre as possibilidades e limites da Razão no campo das três interrogações
fundamentais que são respondidas pela ciência, pela ÉTICA e pela Religião: o
que posso saber? O que deve fazer? O que me é permitido esperar?
No “Prefácio” da FUNDAMENTAÇÃO
DA METAFÍSICA DOS COSTUMES Kant aceita a divisão da Filosofia (de origem
estóica) em Física, Ética e Lógica. A lógica pertence à Filosofia formal e
ocupa-se apenas da forma do Entendimento e da Razão em si mesmas e das regras
universais do pensar em geral, sem distinção do objeto. Já a Física e a Ética
pertencem à Filosofia material, isto é, “ocupam de determinados objetos e das
leis a que eles estão submetidos”,desse modo a Física trata das “leis da
natureza” e a ÉTICA ou “DOUTRINA DOS COSTUMES” (SITTENLEHRE) trata das “leis da
liberdade”.
A intenção de Kant é, pois,
fundamentar a moral em princípios estritamente racionais, ou seja, princípios
“A PRIORI”. Essa é a tarefa a que se propõe a METAFÍSICA DOS COSTUMES. Isso
porque Kant sabe que só é possível uma ÉTICA se, e somente se, esta estiver
fundamentada na Metafísica. Diz ele:
A lei moral, na sua pureza e autenticidade (e
é exatamente isso o que importa na prática), não se deve buscar em nenhuma
outra parte senão numa Filosofia pura, e esta (Metafísica) tem que vir portanto
em primeiro lugar, e sem ela não pode
haver em parte alguma uma Filosofia moral; e aquela que mistura os princípios
puros com os empíricos não merece mesmo o nome de Filosofia (pois esta
distingue-se do conhecimento racional comum exatamente por expor em ciência à
parte aquilo que este conhecimento só concebe misturado); merece ainda menos o
nome de Filosofia moral, porque, exatamente por este amálgama de princípios, vem prejudicar até a pureza dos
costumes e age contra a sua própria finalidade.
Com efeito, a concepção
Kantiana da moral se estrutura, assim, em três móveis que correspondem às três
seções dos FUNDAMENTOS DA METAFÍSICA DOS COSTUMES.
1) “Primeira seção: transição
do conhecimento moral da razão vulgar para o conhecimento filosófico”. Nesse
conhecimento moral da razão vulgar aparecem duas noções centrais: a noção de
“boa-vontade” ( GUTER WILLE) e a noção de Dever (PELICHT) que lhe é
correspondente.” … A necessidade das minhas ações por puro respeito à lei
prática é o que constitui o dever, perante o qual tem de ceder qualquer outro
motivo, por que ele é a condição e uma vontade boa em si, cujo valor é superior
a tudo.”
2) “Segunda seção”: Transição da Filosofia moral popular para a
METAFÍSICA DOS COSTUMES”. Na METAFÍSICA DOS COSTUMES serão definidos
rigorosamente as noções de: Lei, Valor absoluto e necessário ou A PRIORI da
Razão Pura no seu uso prático; dever, necessidade de uma ação com respeito à
lei. É um “A PRIORI” da Razão Pura no seu uso prático e, portanto, não é
derivada da experiência; Vontade, “tudo
na natureza age segundo leis. Só um ser racional tem a capacidade de agir
segundo a representação das leis, isto é, segundo princípios, ou só ele tem uma
vontade. Como para derivar as ações das leis é necessária a Razão, a Vontade
não é outra coisa senão Razão Prática”, Imperativo, fórmula do mandamento ou
dever, “a representação de um princípio objetivo, enquanto obrigante para uma
vontade, chama-se um mandamento (da Razão); e a formula do mandamento chama-se
Imperativo”. O Imperativo se divide em hipotético, quando diz respeito aos
meios, e Categórico, quando se prescreve uma ação objetivamente necessária por
si mesma, ou “se a ação é representada como boa em si, por conseguinte, como
necessária numa vontade em si conforme a Razão como Princípio dessa Vontade,
então o Imperativo é Categórico”.
O Imperativo Categórico
universaliza a máxima que tem caráter subjetivo. As duas principais fórmulas
que Kant propõe do Imperativo Categórico são:
“Age como se a máxima de tua
opção devesse tornar-se, por tua vontade uma lei universal da natureza”.
“Age de tal modo que trates
sempre a humanidade, seja na tua pessoa como na pessoa de qualquer outro,
sempre como um fim e nunca como um meio”.
O fim é compreendido como
aquilo que serve à Vontade de princípio objetivo da sua autodeterminação
(ZWECK); e quando este princípio é dado pela só Razão, ele tem de ser valido
igualmente para todos os seres racionais. O meio é o que contém apenas o
princípio da possibilidade da ação, cujo efeito é um fim. Explicita Kant:
O princípio subjetivo do
desejar é o móbil, o princípio objetivo do querer é o motivo; daqui a diferença
entre fins subjetivos, que assentam em mobílies e objetivos, que dependem de
motivos, válidos para todo o ser racional. Os princípios práticos são formais,
quando fazem abstração de todos os fins subjetivos; mas são materiais quando se
baseiam nestes fins subjetivos e portanto em certos móbiles.
3) “Terceira seção: último
passo da Metafísica dos Costumes para a Crítica da Razão prática”. Aqui Kant
coloca a questão sobre a possibilidade de um Imperativo Categórico. O
pressuposto da Crítica da Razão Prática é a liberdade como FAKTUM a priori e,
portanto, constitutivo da Razão Pura enquanto prática. A prioridade da Razão Prática
implica, por sua vez, a autonomia do sujeito moral e o chamado formalismo
ético, ou seja, a exclusão dos conteúdos “A POSTERIORI” da sensibilidade na
determinação da norma na moralidade. Em Kant o sujeito ético é, eminentemente,
a pessoa racional.
Nos FUNDAMENTOS DA METAFÍSICA
DOS COSTUMES e na CRÍTICA DA RAZÃO PRÁTICA Kant efetua uma espécie de
propedêutica a uma METAFÍSICA DOS COSTUMES, que é, ao que nos parece, uma obra
que visa uma tentativa de aplicação, aos casos e às circunstâncias especiais da
vida real, daqueles princípios universais afirmados a propósito da lei moral e
do Imperativo Categórico.
Uma questão importante da
METAFÍSICA DOS COSTUMES refere-se à divisão dessa obra em duas grandes partes,
a saber, a primeira dedicada à Doutrina do Direito e a segunda a segunda à
Doutrina da Virtude. Parece-nos evidente que Kant percebia que a unidade entre
a Teoria e a Prática no domínio político não possui apenas um sentido ético,
mas é antes de tudo uma questão de Direito. Ora, o direito não supõe, para a
sua realização, as mesmas condições que a ÉTICA, isto é, do valor ao fato e do
direito ao fato a distância não é a mesma, como ensina Kant. Com efeito, para
se ter direitos não é absolutamente necessário ser um homem de BEM, não é
necessário agir por dever; mas é necessário, somente, agir conforme o dever.
Assim, a Doutrina do Direito pretendeu ser um estudo relativo à realização, na
vida gregária, do lado objetivo da lei moral, ao passo que a Doutrina da
Virtude nos reconduz, ao invés, ao lado subjetivo da moralidade, ou seja, o
qual mesmo sendo claramente avaliável só no íntimo da consciência de cada um
(avaliação esta que não podemos saber, uma vez que não podemos saber do outro)
é, aqui, objetivada, vem a ser, suposta como visível, com a intenção de nos
levar a exercitar nosso conhecimento moral e oferecer a nossa consciência um recurso eficaz para que possa tornar-se
sempre mais pronta e vigilante.
Já no “PRÓLOGO” da segunda
parte da METAFÍSICA DOS COSTUMES, isto é, “Princípios Metafísicos da Doutrina
da Virtude” Kant inicia colocando a seguinte questão:
Tem de haver para a Filosofia um sistema de
conceitos racionais puros, independentes de toda condição da intuição, isto é,
uma metafísica. Trata-se, pois, de saber se para toda a Filosofia prática,
enquanto doutrina dos deveres, portanto também para a doutrina da Virtude, são
necessários PRINCÍPIOS METAFÍSICOS para poder estabelecê-la como uma verdadeira
ciência, e não como um agregado de doutrinas examinadas por separado
(fragmentariamente)
Portanto, logo no início, Kant
busca a exclusão dos conteúdos “A POSTERIORI” da sensibilidade na determinação
da norma na moralidade.
Para Kant nenhum princípio
moral se funda no sentimento, na inclinação, mas apenas em princípios
estritamente racionais, pois, caso contrário, a doutrina da Virtude não terá
nenhuma seguridade ou pureza, nem sequer força impulsora. Se renunciarmos aos
princípios racionais e partimos do sentimento patológico ou puramente estético
para determinar o dever, ou ainda, diz ele, “se partimos da matéria da Vontade, do fim, e não da forma da
Vontade, isto é, da lei, então efetivamente não há lugar para princípios
metafísicos da Doutrina da Virtude”. Isto porque o conceito de dever é um “A
PRIORI” da Razão Pura no seu uso prático e, portanto, não deriva da
experiência. Isto porque para Kant tudo indica que a experiência é a mãe do
engano.
Com efeito o que diz Kant sobre
uma “doutrina da Felicidade?” Diz ele, “ultimamente se há pensado em uma certa
felicidade moral, que não se baseia em causas empíricas, o que é um absurdo,
contraditório em si mesmo”. Aqui nosso filósofo refere-se aos eudaimonistas que
dizem ser a felicidade o autêntico princípio motor a partir do qual as pessoas
atuam virtuosamente. Ora, se nos FUNDAMENTOS DA METAFÍSICA DOS COSTUMES o dever
define-se, pois, como “a necessidade de uma ação por respeito à lei”, para o
eudaimonista,
Não é o conceito do dever o que
determina imediatamente a Vontade, mas que só é determinado a cumprir o dever
por meio da perspectiva da Felicidade”. Assim o eudaimonista é levado a cair em
um círculo, pois, “posto que só pode esperar essa recompensa da Virtude da
consciência do dever cumprido, esta última tem que preceder; isto é, tem que
ver obrigado a cumprir seu dever antes de pensar – e sem pensar – que a
Felicidade será a consciência de haver observado o dever. Portanto, com sua
etiologia cai em um círculo, isto é, só pode esperar ser feliz (ou inteiramente
ditoso) se é consciente de que há observado seu dever, porém, só pode ser
movido a observá-lo se prevê que será feliz desse modo..
Aqui dois motivos
contraditórios, segundo Kant, se justapõem, a saber, um motivo moral, na medida
em que deve cumprir seu dever sem perguntar primeiro que efeito isto resultará
em sua felicidade; e um motivo patológico na medida em que só pode reconhecer
algo como dever se pode contar com a felicidade que ele alcançará. Desse modo,
para Kant, quando se coloca como princípio a eudaimonia (princípio da
felicidade) em vez da eleuteronomia (ou princípio da liberdade da legislação
interior), então a consequência e a eutanásia, a doce morte de toda moral.
Qual é para Kant a causa desses
erros? É a não compreensão do que seja o Imperativo Categórico, que é
compreendido como sendo o que representa a ação como objetivamente necessária
em razão de si mesma. É um juízo apoditicametne prático e vincula
necessariamente a Vontade à lei por meio de uma síntese prática A PRIORI. O Imperativo Categórico é o imperativo
próprio da moralidade: “Faze isto porque deves fazê-lo”.
Kant, na esteira de Agostinho e
Lutero, sabe que o homem e um ser de impulsos, de mancha, de inclinações, e a
questão então é, como mesmo sendo “curvus”, deve ser virtuoso. Para tanto a
lição de Kant é que a liberdade é fim em si mesma e para si mesma, e a
liberdade se autofinaliza no consentimento ao BEM, dando-se a si mesma o seu
verdadeiro como Virtude. Diz ele: “O homem tem que julgar-se capaz de lutar
contra essas forças e vencê-las mediante a RAZÃO, não só no futuro, mas também
no agora (ao pensá-lo): isto é, poder aquilo que a lei ordena incondicionalmente
é o que deve fazer”. Kant busca assim a união da ação com a máxima, a tal ponto
que “pela sua própria máxima a Vontade possa considerar-se, ao mesmo tempo
legisladora universal”, ou ainda, “já que as inclinações sensíveis nos conduzem
a fins (como matéria do arbítrio), que podem opor-se ao dever, a Razão
Legisladora não pode defender-se dessas influências a não ser mediante um fim
moral contraposto, que tem, portanto, que estar dado A PRIORI, com
independência das inclinações”.
Dessa feita, exposto um breve
cotejo entre as duas éticas, talvez devesse aqui optar e definir por uma
posição, ou seja, Aristóteles ou Kant? Mas confesso que isso eu não farei, haja
vista ser muito jovem na filosofia e reconhecer que tal posição me exigirá
talvez a velhice.
domingo, 6 de agosto de 2017
ÉTICA E ESTÉTICA COMO PROCESSOS DE FORMAÇÃO DE VALORES
Ética e estética como processos
de formação de valores
Marcos Cordiolli
A
vida da humanidade em comunidade promoveu a criação de ambientes culturais, composto
por regras, costumes, valores, hábitos, tecnologias, linguagens, rituais etc, e
neste conjunto criou-se também referenciais para as condutas sociais, por
convenção, chamado de moral. Os
indivíduos assumem perante para si ou perante grupos de convívios conjuntos específicos
de valores e padrões de conduta que denominamos de ética.
Além disso, desenvolvem padrões para produção artística e de julgamento do
considerado belo que
denominamos de estética. A moral
é, entre outras coisas, o referencial (formado por um conjunto
básico de valores e padrões de conduta) dos grupos sociais de normalidade e
inclusão. Nas diversas sociedades, nas mais distintas épocas, existiram pessoas
excluídas ou perseguidas, por se colocarem além das margens delimitadas, fora do
campo de tolerância e/ou em dissonância com os padrões de normalidades
determinados pela moral vigente no grupo.
A
ética pode ser definida como um conjunto de
valores e padrões de conduta, auto assumidos ou auto-proclamados, que
constituem auto-referencia para a vida em sociedade e que expressa formas de
ver e sentir o mundo. Há, portanto, ética individual e outra coletiva (como a
dos médicos, dos educadores, dos policiais).
Estes
valores e padrões de conduta representam juízos que julgam adequados (ou não)
os valores e padrões de conduta do grupo social (e, portanto, também moral) no
qual se está inserido. A ética significa tanto uma racionalização como um compromisso
com valores e padrões de condutos julgados corretos, belos, virtuosos e necessários,
por isso, que alguns a definem como a ciência da moral, enquanto outros a
tratam como balizadoras para as ações humanas .justas, corretas e ideais visando
à harmonia e a perfeição.
A
estética ocupa da produção
artística, ora se confundindo com a filosofia da arte, das sensações, dos
processos se ocupa da fruição e criação, por vezes também se assume com capacidade
(e direito) de julgamento pretendendo definir o belo, ou no extremo o belo
puro.
O
pressuposto tanto da ética como a estética são julgamentos
de valor que definem referenciais de certo ou
errado, bom ou mal, bem ou mau, belo ou feio.
Tema 2: Uma ética estética ou uma estética
ética
A
ética seria estética ou estética teria uma ética? Isto posto podemos enunciar a
seguinte questão [a primeira]: de que maneira a ética [como referencial de
valores] se entrecruza com a estética? Uma aproximação, talvez possa ser: a
arte sendo produto de sensações, portanto, expressa, também, os valores
daqueles ou daqueles que a produzem: alguns abertamente, outros veladamente e, há
até aqueles inconscientes (a leitura de certas obras de arte permite descobrir
elementos sobre autores, desconhecidos conscientemente por eles próprios). E
como toda obra de arte é uma linguagem, também expressa conjuntos de signos
ideológicos, por mais polifônica que possa ser. Portanto, os imperativos éticos
constituem-se, também, e mesmo que inconscientes, em imperativos estéticos. E
vice-versa. Isto nos remete a outra questão [a segunda]: uma ideologia/ideário
ética corresponderia a uma estética também ética? Jean Claude Bernadet, ao tratar
do cinema, afirma, um fuzil é sempre um fuzil: importa quem o maneja e contra
quem é manejado. Assim, os discursos e as obras são expressões destes ideários,
mesmo que não representem explicita e necessariamente posições partidárias, mas
representam a sensibilidade do autor sobre o mundo. Parêntese:
os poetas curitibanos do inicio do século XX (refiro-me explicitamente ao grupo
em torno de Dario Veloso que conheço um pouco
porque
tive a oportunidade de estudar num trabalho acadêmico) não assumiam uma posição
política explícita, mas produziram textos melancólicos, refletindo o
descontentamento com a ordem urbana e industrial. A melancolia era signo de um saudosismo,
que não se unificava as lutas anticapitalista, mas que também não se somavam ao
ufanismo modernizador.
Assim
sendo, podemos nos colocar uma outra questão [a terceira]: em que medida a arte
pode estar a serviço de uma posição ideológica decorrente da concepção ética do
artista? A história da arte apresenta inúmeros exemplos explícitos, talvez possamos
nos lembrar de Guernica de Picasso, quase um monumento de denuncia a agressão
fascista da população espanhola (mas que hoje se converteu num panfleto
pacifista).
Então
podemos nos perguntar agora: haveria um limite, uma medida, em que a arte, a serviço
de uma ideologia, poderia converter-se num panfleto/instrumento de propaganda?
Parêntese:
no Brasil, talvez, tenhamos que obrigatoriamente nos remeter aos casos de Jorge
Amado e Plínio Salgado representam expressões antagônicas no Brasil, este em
defesa do integralismo e aquele do comunismo. Esta situação pode, ainda, ser
ilustrada pela conversa de Portinari e Neruda: conta-se de quando Neruda
encontrou Portinari, aquele influenciado pelo realismo socialista, disse que
este deveria representar os trabalhadores como fortes e viris, pois seriam
portadores do futuro e do socialismo. O pintor brasileiro, segundo dizem, teria
se limitado a dizer que estes eram os trabalhadores que ele conhecia em
Brodósqui.
Parece
haver duas situações: da arte que combate o capitalismo como panfleto, corrente
esta distinta de outra que, em tese, criticaria o capitalismo mostrando a
miserabilidade dos trabalhadores.
Duas
linguagens artísticas, distintas, mas que poderiam estar entre as consideradas
como engajada. Uma situação, mais pertinente ao século XX,
em que arte perdeu a sua aura na época da reprodutibilidade técnica, numa
formulação clássica de Walter Benjamim, poderíamos então apontar para mais uma
questão [a quarta]: em que medida o artista e sua ética podem ser desvinculados
da produção na arte industrializada? Ou ainda: haveria diferenças éticas na
estética da arte de autoria e/ou conceitual daquela produzida sob encomenda
para um mercado anônimo?
Esta
questão merece, pelo menos, duas abordagens. Num primeiro campo, localizamos a arte
industrial: objetos similares a obras de artes visuais, são produzidos em larga
escala e vertidos em objetos de decoração, boa parte deles, sem identificação
da autoria. A indústria cultural – da literatura, cinema e televisão - em
grande parte, produz obras em série e em linhas de montagem, seguindo regras
rígidas, determinadas pelo produtor, em consonância, com mercado, convertendo o
artista em prestador de serviços e a obra de arte em mercadoria de
entretenimento.
Num
segundo campo, temos a arte a serviço da propaganda e do marketing. Filmes,
fotografias e textos, convertem-se em instrumentos eficazes para expressar
valores e ideias, que necessariamente não correspondem a dos artistas que as
produzem. Estas produções continuariam as ser arte? Ou romperiam com um suposto
preceito ético de que a Arte por si, necessariamente expressa o artista e,
portanto, não pode ser realizada sob encomenda ou com outros fins? Temos ainda
uma outra questão [a quinta]: nos filmes e nos espetáculos de dança, teatro e música,
em que medida, artistas poderiam aceitar a participação nas produções com as
quais possuem divergências éticas? Os atores e músicos em muitos espetáculos são
submissos à direção do músico principal – nos musicais - ou do diretor de
filmes e espetáculos. Por vezes, estes se conduzem por temas que o músico ou o
ator pode estar em conflito. Neste ponto, mais uma contraste ente ética e
estética.
Tema 3: Uma tipologia de questões éticas
em obras de arte
As
obras de arte tratam de temas diversos, nos quais as questões éticas estão
associadas a personagem, pelas quais o autor as críticas, as apoia ou
simplesmente faz menção a existência. Mas é importante verificar que em
diversas situações a obra de arte está voltada para a defesa de alguns valores
e/ou padrões que pode estar em dissonância com o apreciador. Podemos constatar,
pelos menos, as seguintes situações: Na primeira situação, a obra de arte pode ser
expressão por defesa ou explicitação - de uma posição que poderia ser contrária
à ética do apreciador.
Parêntese:
Cazuza, grande poeta e mestre no manuseio das palavras, teria uma postura que poderia
ser considerada por alguns de seus admiradores como calhorda. (calhorda: diz-se
de ou pessoa sem valor, desprezível, ordinária, segundo o Houaiss Eletrônico)
em .Faz parte do meu show.
Te pego na escola e encho
a tua bola com todo o meu amor
Te levo pra festa e testo
o teu sexo com ar de professor
Faço promessas malucas
tão curtas quanto um sonho bom
Se eu te escondo a
verdade, baby, é pra te proteger da solidão
Faz parte do meu show
Faz parte do meu show,
meu amor
A
letra veicula o ideário de um conquistador que utiliza de subterfúgios, para a
conquista, que poderia ser considerada como reprovável, sob o ponto de vista de
alguns esquemas éticos e morais.
Apreciadores
da obra de Cazuza poderiam estar em desacordo ético com a mensagem desta
canção. deste músico? Um outro exemplo antigo, talvez, nem seja o mais
significativo . e penso que é até uma injustiça com os autores, considerando a
época em que a produziram . mas, vale por sempre provocar polemicas com as
feministas: .Ai que Saudades da Amélia. de Ataulfo Alves e Mário Lago.
Amélia
não tinha a menor vaidade
Amélia
é que era mulher de verdade
Poderíamos
listar uma porção de outras situações, em particular, as músicas sexistas do
funk carioca, no samba de breque etc. Uma segunda situação: é possível apreciar
a obra de arte de um autor cuja conduta poderia ser reprovada na perspectiva
ética do apreciador?
Parêntese:
Jorge Luis Borges em um determinado momento apoiou o golpe militar na Argentina,
que produziu uma ditadura nefasta. Os leitores de Borges, que reprovavam as
suas posições políticas, poderiam continuar apreciando a sua obra literária?
Pensando
sobre estas situações poderíamos apontar, ainda uma outra, questão: seria
possível a produção de obras de arte que tragam em si a contradição do mundo,
expondo diversos lados de uma situação ética?
Parêntese:
dentre as obras que lidam com a contradição, eu destacaria o filme. Faça a
coisa certa. (1989) do Spike Lee. Diferente de outras obras do autor, que às
vezes radicaliza nas situações da vida concreta da comunidade
afro-estudinidense, ou às vezes caminha para uma postura claramente panfletária,
como o caso de Malcom X. Neste filme, os personagens são apresentados em suas contradições
concretas, é um filme tão explosivo que parece singelo, e até mesmo inocente,
se não fosse tão duro.
Tema 4: formação ética e formação
estética
Ética
e estética sendo definidas como conjunto de valores - como pressupomos neste ensaio
- nos remetem a questão do como estes seriam formados. Eu quero arrolar, mesmo
que rapidamente, alguns temas e problematizações desta questão.
Qual
a função do ambiente cultural na formação de valores? O ambiente cultural é por
excelência o principal espaço modelador de valores - morais, éticos e
estéticos. O ambiente cultural - composto por diferentes grupos de convívio - contêm
diversos agentes formadores de valores - morais, éticos e estéticos –
disputando permanentemente as mentes e sentimentos das pessoas. O convívio -
com familiares, nas igrejas, nas escolas, no trabalho, nos clubes, nos locais
de lazer - estabelece interlocuções polifônicas com linguagens artísticas, com
modelos sociais interferindo decisivamente na formação de padrões éticos,
morais e estéticos. Mas a vida num ambiente cultural não homogeneíza as
pessoas, mas seguramente, cria condições para padrões sejam eles éticos ou
estéticos - sejam mais aceitos do que outros. As multiplicidades de mídias contemporâneas
também produzem interferências, cada vez mais significativas e decisivas – na formação
de padrões estéticos, pois permitem relações mais individualizadas. Este
processo seguramente reduz o poder formativo dos ambientes culturais e
estabelecem novas referências e maior autonomia na formação de valores éticos e
estéticos.
Qual
a função do racionalismo na formação de valores? O racionalismo é, também,
agente de formação de valores - morais, éticos e estéticos. O iluminismo,
herdeiro da tradição helênica, defendeu com ênfase que a razão (e o
racionalismo) seria o elemento fundamental da
formação dos valores.
Pressupondo
que os seres humanos seriam livres para a escolha consciente dos valores, e
daí, portanto, o fundamento do conceito de ética e estética como valores
auto-determinados. Mas, o idealismo do iluminismo não se professou plenamente.
Os elementos da psique humana atuam em conjunto com a racionalidade,
mobilizando sentimentos, desejos e afetos, além das marcas deixadas no aparelho
psíquico pelas mais diversas experiências humanas. Assim os seres humanos não
são quem realmente acreditam racionalmente - que sejam. Assim, o racionalismo
tem um peso fundamental na aceitação negação de valores, porém, não são exclusivamente
determinantes. Qual a medida, então, das marcas nos aparelho psíquico dos indivíduos
na formação de valores? A experienciação da diversidade de situações de vida
marca profundamente o aparelho psíquico das pessoas mantendo-as em situações conscientes,
subconscientes e inconscientes. Esta teoria, proposta inicialmente por Freud,
ajuda a explicar preferência e repulsas, fobias e desejos, recalques e
condutas, inclusive as não-conscientes. Assim, mesmo que professem valores
publicamente, as pessoas têm em seus respectivos inconscientes e
subconscientes, outros desejos e pulsões, que podem ser reprovados tanto pela
moral quando pelos códigos de ética. Assim, pessoas ambientes culturais
similares tendem a ter professam gostos similares, mas os elementos da psique e
da razão - permitem mudanças e rupturas, formando valores distintos e
peculiares. Casos de gêmeos, que criados em situações similares, formam valores
morais e estéticos - ou padrões estéticos distintos são, talvez, o exemplo mais
concreto desta situação.
Arquétipos
culturais produzem efeitos sobre valores? As teorias dos arquétipos -
generalizada a partir da obra de Carl Jung, defendem que a cultura e a psique
são influenciadas por heranças culturais inconscientes, transmitidas de geração
a geração, produzindo na formação humana o reforço de diversos valores e padrões
de conduta. Os arquétipos estariam, portanto, presentes na formulação dos
esquemas éticos e estéticos, além da interferência direta do senso moral.
A
formação de valores - morais, éticos e estéticos - teria, em algum grau,
influência filogenética? As filosofias iluministas, principalmente no século XX
tentaram excluir diversos tipos de determinismo genético no comportamento
humano, assim como o de habilidades inatas, em particular, o conceito de dom para
artes, profissões ou crimes. No entanto, a genética contemporânea tem
apresentado estudos de relacionamento de comportamentos com genes, que
indicariam possibilidades de herança genética, para certos procedimentos
repetidos por gerações. Embora as pesquisas ainda não sejam conclusivas, mas
ajudam a reforçar e disseminar crenças populares nesta perspectiva.
Estes
fatores, ou ao menos alguns deles, somados a outros não arrolados neste ensaio,
expõe a complexidade do processo de formação de valores. O que podemos deduzir,
sem esforço, que cada ser humano constitui tecidos peculiares de valores, portanto
de códigos de ética como de padrões estéticos, como resultado de diferentes e
complexas interações.
Anexo:
A escola pode dirigir a formação de valores e padrões estéticos. A
resposta para esta questão é afirmativa. Para esta questão vou apresentar uma problematização.
Toda ação escolar é antes de tudo uma interferência na formação de identidade
de crianças e jovens dirigidos por um ideário da cultura adulta. A instituição
escolar, segundo Hanna Arendt, é [...] instituição que interpomos entre o
domínio privado do lar e o mundo com o fito de fazer que seja possível a
transição, de alguma forma, da família para o mundo. [Arendt, 1992, p. 238]. A escola
é o mecanismo mais forte e mais explícito de incorporação das novas gerações de
nossa espécie na cultura da geração que a pariu. Foucault já disse que é
notável como as escolas se parecem acentuadamente com as prisões, os quartéis e
os hospícios. Todos eles instrumentos de incorporação a um padrão de
normalidade.
Os
processos escolares [...] constituem formas de regulação social, produzidas
através de estilos privilegiados de raciocínios. Aquilo que está no currículo
não é apenas informação a organização do conhecimento corporifica formas particulares
de agir, sentir, falar e «ver» o mundo e o «eu». [Popkewitz, 1995, p. 175].
Esses
processos implicam também em dispositivos de regulação moral, pois definem [...]
qual conhecimento é legítimo e qual é ilegítimo, quais formas de conhecer são
válidas e quais não o são, o que é certo e o que é errado, o que é moral e o
que é imoral, o que é bom e o que é mau, o que é belo e o que é feio, quais
vozes são autorizadas e quais não o são. [Silva, 1995a, p. 4].
A
escola dirige a formação de identidade e, portanto, produtora de valores e
padrões tanto éticos quanto estéticos. Mas para isto a pedagogia tem enfrentado
diversos problemas, que poderia expressar, alguns deles, nas seguintes
questões: Quais as propostas pedagógicas? Elas são poucas e ainda assim depende
do voluntarismo dos professores. Qual o sentido desta formação? Geralmente é a
do mundo adulto e a partir dos referencias éticos dos professores. Qual o
direito dos adultos para definir qual conhecimento é legítimo e qual é
ilegítimo, quais formas de conhecer são válidas e quais não o são, o que é
certo e o que é errado, o que é moral e o que é imoral, o que é bom e o que é
mau, o que é belo e o que é feio, quais vozes são autorizadas e quais não o são?
Há um caminho? Há vários, que passam por escolas abertas e não-diretivistas.
Referências
ARENDT, Hanna. Entre o passado e o futuro. 3. ed. São Paulo:
Perspectiva, 1992.
BERNARDET, Jean-Claude. O que é cinema. São Paulo: Brasiliense,
1980.
POPKEVITZ,
Thomas S. Reforma educacional: uma política sociológica. Porto alegre,
Artes Médicas, 1997.
SILVA, Tomaz Tadeu.
Currículo e Identidade Social: Novos Olhares. XVIII Reunião Anual da Associação
Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Educação. Caxambu
(MG),
1995.
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